sábado, 22 de agosto de 2009

Tempos de Paz digitais. Um filme que caminha do naturalismo ao lúdico teatral


Tempos de Paz, novo filme de Daniel Filho e de sua produtora Lereby, é um filme interessante pra quem quer observar um trabalho de ator.

O filme tem fortes traços teatrais (é saído de uma peça), e ao fim, deixa de ser um denúncia da ditadura Vargas, dos métodos fascistas, para se declarar uma obra de amor ao teatro.


Tony Ramos está excelente com a caracterização quase Hitler de seu personagem Segismundo. Destaco seu monólogo onde descreve os métodos de tortura, sua frieza e o tom casual que dá ao depoimento é espetacular. Para atores, observar também a cena em que come um pão molhado ao café com leite. Muitos atores têm dificuldade em atuar comendo.

Dan Stulbach compõe um personagem teatral, e através de seu monólogo em que tenta fazer Segismundo chorar, rasga a linguagem naturalista do filme e apresenta uma forma teatral lúdica em sua declamação, na decupagem da fala, em suas ações físicas, a direção colabora, com a iluminação, sonorização, planos médios, mis en scene, enfim, sua proposta.


O filme começa com imagens reais da segunda guerra mundial e termina com uma apresentação teatral num palco improvisado, onde torturadores do regime varguista em queda, torturados e imigrantes sobreviventes dos horrores da guerra assistem juntos. A mensagem é clara: o Teatro tem sua função de dar ao homem sonho e esperança. O conceito também é claro, o filme começa numa linguagem realista-naturalista de denúncia da opressão para uma linguagem lúdico teatral, onde o homem pode sonhar junto.

Creio que o filme, ao início, nos prepara para um embate que realmente não ocorre, um imigrante (Closewitcz) cheio de mistérios que chega ao Brasil, um torturador que tem que investigá-lo e que tem o poder sobre seu destino, um comunista (Dr. Penna) que ao sair da cadeia sai em busca de seu carrasco, Segismundo, o mesmo torturador que confronta Clowsewicz.

O roteiro por caminhar nesse ambiente ambíguo, não conseguiu provocar o que evocava Aristóteles, horror e piedade, pois se por um lado há o reconhecimento (descobre-se da vida e dos objetivos dos personagens, seus passados e suas esperanças), por outro as peripécias (boa ou má fortuna), ou seja, os acontecimentos ao longo do tempo dramatúrgico, não conseguem, ao mudar a postura naturalista para a lúdica, darem o nó necessário, portanto, o clímax se esvazia.




A fotografia é feita em alta-definição digital 4k, um formato que tende a se impor no mundo do cinema. O formato 4k, por ser bem maior do que a tela de cinema atual, permite o reenquadramento, e há alguns takes em que este recurso foi usado, destaco na fala em que Segismundo e Closewitcz estão ambos em quadro e Segismundo brada: Absurdo!- seu personagem obtém um desfoque digital, não ótico. As temperaturas obedecem aos padrões: externa fria, interior quente, mas na sala de interrogatório, há misturas de luzes e tonalidades (indentifiquei uma descontinuidade de fotografia, que esquenta num plano de volta para Closewitcz, durante o interrogatório). A colorimetria digital deixa sua marca, e em alguns pontos esquenta demais, a saturação explode um pouco. Optou-se pelo uso maior de planos médios e gerais do que o de primeiros planos em tele, com o fundo desfocado, o que me surpreendeu por se tratar de um filme onde o conflito se dá entre dois personagens em seus dramas e expectativas de vida.



A edição é muito interessante, num filme de planos médios, gerais e americanos, nos surpreende com alternância de eixos, e sua dinâmica a serviço da história. A sonoplastia marcou ponto na cena em que se ouve um rádio, e de acordo com o plano há uma mixagem espacial diferente do som desse rádio, mas ficou aquém na malha sonora apresentada, assim como em certos diálogos que pareceram dublados com sua mixagem estranha. O som do navio anunciando sua partida é um presente ao espectador, exemplo de sonoplaista à serviço da ação dramática do filme. A trilha sonora careceu de força (estou criticando o Egberto Gismont?), mas me pareceu dramática demais, a música tema é belíssima, mas o tom musical foi no geral melodramático. Faltou a trilha seguir o rumo do filme, creio que o excesso do momento naturalista do filme se contrapõe à beleza e força do monólogo tetaral de Closewitcz. Senti que faltou um pouco de profundiade na mixagem da música (merecia uma orquestra ao invés de sintetizadores, né?).

Há efeitos especiais interessantes, como a mão do Dr. Penna (nome sarcástico, não?), mas o navio não ficou tão convincente.





Do meu ponto de vista filosófico pessoal, acho perigoso apresentar o personagem de um torturador com um perfil psicológico infantilizado, de um órfão apegado à irmã e que cumpre sem pestanejar as ordens de seu protetor, como um fiel cão de guarda. Em se tratando dos crimes de um estado, como os muitos que o estado brasileiro cometeu ao longo de sua história, tanto os mandantes como os executores eram cúmplices, não somente nas atitudes como nas ideologias por trás das ações. Nestes casos, não importa tanto o que sente um homem, mas o que ele faz. A tortura ou qualquer opressão é infame. Bela descrição quando Segismundo declara: Eu sou o regulamento. É isso que se dá em qualquer tirania ou ditadura, alguém imbuído de poder, se torna o estado, as regras, o dono de destinos, o bem e o mal.

A Lereby se propõe a realizar um cinema com viabilidade econômica, o que é certíssimo, pois um filme é, além de uma obra de conteúdo artístico, um empreendimento empresarial, onde se contrata mão de obra, se produz e se vende o produto. O filme procura se enquadrar nesta nova fase comercial da área, onde a palavra é convergência de plataformas, veio de uma peça de teatro, foi para o cinema e tem vários braços na internet. O próximo passo do cinema é realmente ter uma dinâmica maior nos celulares e internet, com cenas que mostrem o destino de cada personagem, documentários de suporte e etc.

Vale a pena.




@cajuínas

3 comentários:

  1. Há anos assisti esta peça no teatro e fiquei impressionado com a força e atuação de Tony Ramos e Dan Stulbach. Quero ver como ficou no cinema. Já tive o prazer de trabalhar com o Daniel Filho e a cada dia que passa admiro mais o seu trabalho e sua maneira de pensar o cinema como arte popular.
    Abs.

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  2. A crítica está melhor que o filme!
    Mas diga-me, qual o problema de criticar o Egberto Gismonte?

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  3. Rsrsrs.. é vero... só a coragem...

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