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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Literatura e seus livros - Boa Ventura! - Lucas Figueredo



Foi dessa forma desordenada e no meio do sertão bruto que pela primeira vez o Brasil se encontrou.
(sobre a descoberta do ouro nas Minas Gerais, séc. XVIII)



Boa Ventura!
A corrida do Ouro no Brasil (1697-1810)

Interessantíssimo livro do jornalista Lucas Figueiredo. Chama a atenção a abordagem do autor sobre um tema interessante: como as utopias milenaristas de Portugal (das quais somos herdeiros diretos) fundamentadas em lendas e mitos, moveram uma nação inteira, criando um projeto nacional que uniu toda a sociedade (aristocracia, clero e plebe) e construiu um império, lançando o povo português no além mar, descobrindo e conquistando terras em busca do reino encantado de Prestes João, onde os palácios eram construídos de ouro, numa odisseia considerada mais perigosa e incrível que a conquista do espaço.

Mais tarde, no século XVI, no Brasil selvagem, mais uma vez, fundamentados em lendas e mitos, dessa vez em busca da montanha de ouro, Sabarabuçu, "o sol na terra", sai o bandeirante e o estado português em incríveis aventuras pelo sertão bruto, onde de cada 10 que iam, somente um voltava. Agora a união é entre o estado português e o filho do reinol com o índio, aquele que seria o primeiro brasileiro, o bandeirante paulista, bárbaro, violento, caçador de índios e obstinado por sua liberdade, que para ele era a distância do estado e do rei português de sua pátria (São Paulo). 

Apesar das opiniões racionais e sensatas dos governantes de Portugal, que demonstravam a loucura que era esta busca, eles persistiram por mais de cento e cinquenta anos e a descoberta do ouro viabilizou o Brasil e como diz o autor: inflamou o mundo. 




A razão, como dizem, sempre está certa, mas por vezes não é transformadora e nesses momentos, a emoção desvairada movimenta homens, estados, povos, corações e mentes.

Vale a leitura.


@cajuínas
Paulo Siqueira
www.cajuinas.blogspot.com

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Tradição oral e sua poética


Início do filme "Histórias". Trata da tradição oral e temos dois contadores de histórias brasileiros, dois griots africanos e um datka Macro-jê (o equivalente ao griot) discutindo o assunto.






@cajuínas
Paulo Siqueira

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Código de conduta dos Piratas


Do excelente Livros e Afins


Talvez você imagine que, por serem supostamente bandidos (não poucas vezes contratados e autorizados por seus soberanos), os piratas não tinham um código de conduta.
Bem, eles viviam durante meses dentro de navios e, claro, grupos grandes de homens semi-selvagens (como ainda somos) precisam de regras claras para manter um bom convívio.
Cada capitão e cada navio tinha o seu. O livro Os Piratas Mais Perversos da História, de Shelley Klein – que então leio (o autor do Blog - Alessandro Martins), cita a obra A General History of the Robberies and Murders of  the Most Notorious Pirates, de 1724. Nela aparece o exemplo do capitão Bartholomew roberts, que durante uma viagem baixou as seguintes regras:
1.Todo homem tem direito a voto nos assuntos do momento; tem igual direito a provisões frescas ou bebidas fortes, asseguradas a qualquer tempo, e de usá-las à vontade, a menos que a escassez torne necessário para o bem de todos votar por um racionamento.
2. Todo homem tem o direito de ser convocado, segundo a Lista, ao Conselho dos Prêmios, porque (sobre e acima da sua devida parte) nestas ocasiões tem direito a uma muda de roupa; mas, se lesar a Companhia no valor de um dólar, em prataria, jóias ou dinheiro, sua punição será o desterro.
[Este era o costume bárbaro de colocar o infrator numa praia, em algum cabo ou ilha desolado ou desabitado, com uma arma de fogo, alguma munição, uma garrafa de água e uma garrafa de pólvora, para com isso sobreviver ou morrer de fome. Se o objeto roubado fosse de um dos membros da tripulação, eles se contentariam em cortar as orelhas e o nariz do culpado e jogá-lo na praia - não em um lugar desabitado, mas em algum lugar onde certamente ele encontraria dificuldades]


3. Ninguém deve jogar cartas ou dados por dinheiro.
4. As luzes devem ser apagadas às oito horas da noite. Se algum membro da tripulação, após essa hora, ainda permanecer inclinado a beber, deverá fazê-lo no convés.
[Roberts acreditava que assim reprimiria o vício, pois ele próprio não bebia, mas por fim descobriu que todos os seus esforços eram inúteis]
5. Os tripulantes devem manter suas armas de fogo e alfanjes limpos e prontos para o serviço.
6. Não é permitida entre a tripulação a presença de nenhum menino ou mulher. Se algum homem for descoberto seduzindo alguma mulher e a levar para o mar, disfarçada, será punido com a morte.
7. Quem desertar o navio ou se recolher aos seus aposentos durante uma batalha será punido com a morte ou com o desterro.
8. Nenhum homem deve agredir outro a bordo, e toda disputa, quando as partes não chegarem a uma reconciliação, deve terminar num duelo na praia, com a espada e a pistola: o contramestre do navio os acompanhará até a praia com a assistência que julgar adequada, e colocará os querelantes costa com costa, e depois os fará dar alguns passos. À voz de comando, eles se voltarão e atirarão imediatamente. Se ambos errarem, recorrerão a seus alfanjes, e então será vitorioso aquele que arrancar do outro a primeira gota de sangue.
9. Nenhum homem pode falar em mudar seu modo de vida até juntar mil libras. Se, para conseguir essa quantia, perder um membro ou ficar inválido, ganhará oitocentos dólares do cofre comum, e menos que isso, proporcionalmente, no caso de ferimentos menores.
10. O capitão e o contramestre recebem duas partes do prêmio; o imediato, o mestre e o homem de armas, uma parte e meia; os outros oficiais, uma parte e um quarto.
11. Os músicos devem descansar no sábado, mas nos outros seis dias e noites descansam apenas se receberem autorização especial.
Sim. Pelo menos os músicos podiam descansar no sábado.




@cajuínas
Paulo Siqueira

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tropas brasileiras cantam o hino nacional sob bombardeio

No dia 29 de outubro de 1944, as tropas brasileiras da FEB, cantavam o hino nacional durante uma transmissão ao vivo para a rádio BBC, quando houve duas ondas de ataque aéreo. As tropas, que estavam na catedral de Pisa, continuaram cantando até o fim, sem arredar pé. É emocionante ouvir o hino nacional ser cantado numa situação destas, com as bombas ao fundo (aumente o volume). Não busquemos racionalidades no ato, afinal, numa guerra, a primeira vítima não é a verdade, mas sim a razão. Se assim a houvesse, não haveria guerra.







Se fosse uma tropa americana com certeza já teriam sido feitos filmes sobre a bravura, ou imbecilidade do fato. Enfim, foram soldados brasileiros e devemos ter orgulhos dos brasileiros que foram lutar em terras estrangeiras numa guerra que não era nossa mas passou a ser, quando lutar contra o nazismo representou salvar o ser humano em sua humanidade.

Muitos dizem que os soldados brasileiros da FEB eram paus-de-araras. OK, isso não é depreciativo Eram brasileiros, seres humanos, e os soldados americanos, também eram os Rednecks... Os ingleses botaram os povos colonizados pra lutar, instigaram os russos e etc.

Há no Brasil um mau hábito de depreciar tudo o que nosso povo produz, ou que nossa história transcorreu. A história brasileira é muito bonita com erros e acertos, mas com certeza, é uma história de lutas, de resistência, vitórias assim como derrotas.

Percebo um certa vergonha no brasileiro em ser patriota. Mas porque ser patriota? Simplesmente porque é aqui que vivemos, onde vivem nossas famílias, nossos parentes e amigos. É esse país que nossos filhos herdarão. Ser patriota não significa, evidentemente, colocar os chamados "interesses nacionais" acima das liberdades individuais e civis de nosso próprio povo ou de povos estrangeiros. Afinal, nosso verdadeiro interesse nacional é a garantia das liberdades individuais e civis do nosso povo e outros, assim como sua paz, sua cultura, seu bem-estar e a busca radical pela felicidade humana.

Estamos muito longe de sermos um país sequer perto disso, mas não alcançaremos estes objetivos negando nossa história, cultura e país. É preciso ter orgulho, se nosso país já produziu estados opressores e tirânicos, escravocratas e assassinos, por outro lado, produzimos heróis de resistência, grandes pensadores, artistas, mestres. Mas para ser patriota, e ter orgulho desse país, é preciso conhecer sua história, sua literatura, sua geografia, seu povo, sua cultura É preciso um mínimo de esforço, já que hoje em dia percebo nos jovens a profunda ignorância de fatos recentes da história brasileira e de seus personagens.

Taí meu lado patriótico piegas.

Ah... sim, nosso hino é um dos mais lindos do mundo, assim como o hino da bandeira, da independência, da marinha, do expedicionário, do soldado e o do Flamengo.

Ok, o do América, do Vasco, do Fluminense, do Coríntias, do Rio de Janeiro... a música brasileira é dez.



@cajuínas

sexta-feira, 5 de junho de 2009

As Memórias do Livro - Geraldine Brooks



Este livro de Geraldine Brooks, tem uma idéia muito interessante, um Hagadá do século XV reaparece em Sarajevo logo após o fim da guerra civil, em 1996. O Hagadá estava desaparecido desde o início da guerra, e acreditava-se que havia se tornado cinzas nas trincheiras bósnias. Mas para surpresa geral, fora salvo por um mulçumano, apesar do Hagadá ser um texto judaico.

O Hagadá então vai para as mãos de uma experiente restauradora para que ela o conserve e tente descobrir o que foi a vida deste livro. Ou seja, é a história da história de um livro, quase um CSI da literatura e da história. Através de fragmentos de pigmentação, asas de insetos, fios de cabelo, manchas de vinho, a heroína (Hanna) tenta refazer a trajetória do livro ao longo dos séculos, das guerras, inquisições, progroms, misérias, e etc. Com isso vamos aprendendo um pouco sobre momentos da história, costumes, tradições, etc.

A idéia é muito excitante, a execução deixa um pouco a desejar. Numa linguagem mais simples e direta não surpreende, os personagens são um tanto o quanto simplificados (os judeus todos cultos, os cristãos tolos ou intolerantes, os comunistas escrotos, os mulçumanos amigos dos judeus). Nada contra a defesa da cultura judaica, tão importante para o nosso mundo, tão vasta e bela, mas isso não precisa ser feito em detrimento de outras culturas, nem simplificando as características dos personagens, pra exemplificar: quando se descreve a perseguição aos judeus na Sarajevo da segunda guerra mundial, se justifica o apoio mulçumano, dizendo-se que foram somente uma minoria que participou, e por outro lado, os relatos do pós-guerra, (ou antes, nos relatos dos partisans de Tito) caracteriza-se os comunistas como despóticos, insensíveis à cultura e até mesmo a vida humana.

Os contos suplementares, que ilustram pelo que passou o manuscrito são bem inferiores ao mistério proposto. Mas vale a pena, leitura fácil e agradável.

É uma obra de amor à literatura, à história, à cultura, à ciência e ao saber. É um protesto contra a intolerância, a guerra, os preconceitos e à tirania. Nos lembra o valor que o conhecimento humano tem, assim como o próprio ser humano em suas vastas emoções e sua capacidade criativa, com seu compromisso em preservar sua história. Nos lembra quantos sacrificaram suas vidas pra proteger pergaminhos, papiros, fragmentos, livros ou o que seja. Nos lembra o perigo em se pregar a queima de livros, que nada mais são que depositários de todo o saber e culturas humanas. Alô diplomacia brasileira!!!



Hoje em dia, quando o anúncio da nova geração de leitores digitais aflige aos apaixonados pela literatura, creio que devemos ter em mente que os livros nem sempre existiram, havia outros suportes antes que deram lugar ao livro. Ser contra o leitor digital hoje, me soa como alguém, ao tomar conhecimento de Gutenberg, dissesse: Nada, nunca, vai substituir um bom copista! Já vimos esta história antes, quando o computador chegou e mostrou que veio pra ficar, alguns defendiam o prazer de se produzir nas máquinas de escrever. Os mesmos que hoje utilizam o computador avidamente.

Em tempo: A Ediouro poderia ter feito uma revisão melhor da tradução. Há muitos erros, pelo menos na minha edição.




@cajuínas

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Três Macacos, um filme muito bom


Três Macacos (Nuri Bilge Ceylan) é um filme muito interessante. Filme turco produzido em video (HDCAM) conta a história de uma família, cuja o pai aceita ser preso no lugar do patrão.

Vale destacar a fotografia do filme (Gökhan Tiryaki), na contramão do que é o padrão hoje em dia (com as cores supersaturadas, como se tudo fosse um comercial publicitário), em Três Macacos o tom é pastel, quente. Gökhan/Nuri usam magistralmente o recurso das lentes grandes-oculares e teleobjetivas, inserindo-as dentro de um contexto dramático, com isso,economizando recursos de trilha sonora para "sensoriar" o espectador. Quem se lembrar, pode reparar na cenas no apartamento, quando a mãe (Hatice Aslan) e o filho (Rifat Sungar) assistem televisão, a grande-ocular amplia o ambiente, aumentando a sensação de distância entre os personagens, e evidenciando o tédio do dia a dia. Em outros momentos, o apartamento é fotografado com teleobjetivas, criando a claustrofobia, o calor e a tensão dramática do ambiente.



A sonorização é outro presente (Umut Senyol) o personagem de Eyüp (Yavuz Bingol) tem sempre uma respiração pesada, incômoda. O som do trem, dos pássaros, da tempestade, e etc. A única música do filme é o toque de celular de Hacer.




O filme sempre brinca com nossos sentimentos com relação aos persongens que são multifacetados, Eyüp se sacrifica pelo patrão (Ercan Kesal), vai pra cadeia, mas na primeira cena em que sai, é agressivo com o filho Ismail, logo em seguida não consegue transar com a esposa, mistura agressividade com carinho, mas no fim o que sobra é distância. Especial a cena em que Eyüp se esquiva nas sombras, esperando a esposa se suicidar, em seu rosto tenso há um misto de ansiedade, raiva, medo, culpa. Em seguida, é extremamente calmo e caridoso para com Hacer, a esposa. Hacer trai o marido, enquanto este se encontra preso, com o próprio patrão, nenhum de nós homens aguenta isso. É o cúmulo, mas quando o marido, Eyüp sai da cadeia, começamos a entender sua solidão amarga. Ismail, o filho, e Servet, o patrão trazem inconstâncias, raivas, fraquezas, medos... É valoroso observar personagens humanos que não precisam justificar suas ações em um passado triste, mas sim nas emoções e éticas do seu presente dramático. Há o personagem onírico do filho de Eyüp, que morreu afogado e que não consegui absorver bem no contexto do filme. Talvez tivesse que conhecer mais a cultura turca para compreendê-lo. Os atores cumprem bem os papéis profundos, fortes e delicados que lhes cabem, claro que não há como avaliar realmente uma atuação em turco, mas as respirações, os olhares, as ações físicas estão todas lá.

Vale atenção:

cena em que Ismail esbofeteia a mãe (a dublagem é meio óbvia, mas tudo bem). A cena em que Eyüp espera tenso a mulher se suicidar. A cena em que Ismail, deitado na cama vê o irmão morto, o suor corre ao contrário, marcando o tempo reverso da cena. A cena do carro entre Servet e Hacer, a edição brinca com o som das falas, enquanto vemos os personagens calados, para no plano seguinte aparecerem falando. A cena da briga entre Servet e Hacer, toda em plano aberto de longe, com a baía ao fundo. No último corte da cena, o único, percebemos que alguém espreita dos arbustos. A cena em que Ismail atravessa os trilhos do trem e segue pelo mato, a bela fotografia e o uso do Glow na imagem ( na camisa de Ismail).

A edição é muito bem realizada, lapidando o tempo de acordo com a necessidade dramática e em total sintonia com a fotografia, algo difícil nos dias de hoje, quando as edições que chamam a atenção são as clipadas, com cortes rápidos.




Incrível a nossa (pelo menos a minha) ignorância que gera preconceitos com relação à Turquia. Um País metade europeu, às portas da UE, uma ponte entre o ocidente cristão e o oriente mulçumano. Nos esquecemos que são pessoas como nós, com suas vidas, suas famílias, suas angústias, seus dramas pessoais, suas emoções. Peço aqui desculpas publicamente por esquecer que somos todos seres humanos, e cair na propaganda que nos vende os mulçumanos como exóticos, ou terroristas em potencial. Em algum momento da história, teremos que atravessar o canal não com armas em punho, mas nos darmos as mãos e buscarmos construir caminhos de paz , compreensão e solidariedade. O império Turco-Otomano foi durante o milênio medieval, uma luz de sabedoria, ciência, filosofia e paz na Europa, África e Ásia. Claro que não posso concordar com monarquias fundamentalistas, ou qualquer forma de ditadura. Mas isto não me parece privilégio oriental, nem muito menos mulçumano. Muito menos no que se refere aos líderes carismáticos...




@cajuínas

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Os neomercenários da era Bush. (ainda estão na ativa.)

Blackwater - Jeremy Scahill

Impressionante este livro. Não traz nada de teorias de conspiração, e nem revela nada oculto. É todo referenciado com notas, e suas informações são todas públicas.

O impressionante é a privatização militar americana, em bom português: o uso de mercenários. O Mercenário não tem bandeira, não tem ideologia, não tem escrúpulos, códigos de conduta, nem controle da sociedade.


A Blackwater é a maior empresa de "segurança privada" dos EUA, na verdade, uma empresa de guerra, mercenária, um exército particular. Fatura milhões e seus funcionários não respondem à Convenção de Genebra, ou qualquer lei, quando atuam fora dos EUA não respondem às leis americanas. Ou seja, podem matar, torturar, passar com os carros blindados por cima, atirar antes de qualquer ataque, enfim, tudo aquilo que achamos que só acontece em filmes.


A Blackwater está envolvida nas chamadas "ações encobertas" do governo americano na luta contra o terrorismo, ou:
"Black bag". Isto significa aquilo que realmente parece, estiveram presentes e Abu Ghraib, e outros centros de tortura, sabotagens, operações secretas, assassinatos de líderes políticos, e toda a sujeira que pode estar escondida por baixo desta água escura.



A empresa surge dentro da idéia ultra-conservadora liberal que apoiou o governo Bush e se baseia em princípios cristãos conservadores americanos: liberdade absoluta de mercado, contra o aborto, contra o homossexualismo, a favor da abstinência sexual, a favor da família e do casamento, contra outras religiões e principalmente a favor da guerra como instrumento legítimo de implementação dos seus ideais.

Muito preocupante. Vejamos o que o Obama vai fazer com eles. Eu posso estar maluco, mas isso me parece uma séria ameaça à democracia e aos direitos humanos e civis em todo o mundo.







@cajuínas

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Dia D, pra quem gosta de história e boa leitura.


O Dia D (Stephen E. Ambrose, ed.Bertrand Brasil) é um ótimo livro sobre essa batalha que foi a maior invasão anfíbia da história (tudo bem, eu também acho que Stalingrado foi a mais importante de todas, mas o Dia D não deixa de ser foda...). Ambrose consegue abordar desde as macro-condições geo-político-militares-estratégicas, até as pequenas situações humanas, seguindo o personagens reais, do comandante Ike, até o soldado em combate.

Interessante a tese de Ambrose, havia a falsa idéia entre os comandantes nazistas de que o soldado alemão, disciplinado em um regime forte e autoritário, seria mais apto à guerra, mais firme e cumpriria as ordens sem contestar e portanto com mais coragem. O que ocorreu foi justamente ao contrário, os jovens soldados, produtos das democracias ocidentais, em combate mostraram muita coragem e mais, possuíam mais iniciativa e capacidade de improvisação, já que após o começo da batalha, os planos têm que se modificar, e os jovens aliados não se sentiam pressionados a esperar uma decisão do alto comando. Inversamente aos alemães, que não contavam com seu comandante direto, Rommel (ia de carro visitar a família na Alemanha), e não puderam utilizar de pronto suas divisões panzer, pois Hitler dormia, e ninguém tinha coragem de acordá-lo, ou dar a ordem de utilizar as divisões panzer sem sua autorização, horas preciosas foram perdidas.


História Oral

O livro utiliza tanto documentações primárias e secundárias, como o relato dos sobreviventes, numa linha controversa que é a da história oral. Revela informações surpreendentes, como a da captura de soldados coreanos, servindo aos alemães.

Interessantíssimo.




@cajuínas

domingo, 19 de abril de 2009

Tony Manero não, maneiríssimo!


Acabei de assistir a Tony Manero (de Pablo Larraín), excelente filme de co-produção Brasil-chilena. Tolo que sou, pensava que assistiria a um filme sobre um fã de John Travolta. Na verdade o filme é sobre um personagem obcecado, psicopata, indiferente às pessoas e aos que o cercam, que vive em meio à ditadura militar chilena e com ela se confunde, sem tomar parte no processo.


Mas o que tem haver uma coisa com outra?

O personagem Raúl (Alfredo Castro) representa o próprio Chile naquele momento bestial. Buscando o modelo econômico americano, dentro de uma realidade política ditatorial, acaba se tornando uma cópia patética (tanto no sentido grego, quanto no disneylândico-rsrsrs) do original, no caso de Raúl, de Tony Manero. Sua obsessão não leva em conta nada, nem ninguém, por isso mata e caga para os outros (caga literalmente, é preciso assistir pra entender). Autoritário, toma suas decisões sem levar em conta o grupo, que o segue inquestionavelmente, o que nos parece inacreditável. Sua incapacidade de fazer sexo é simbólica. Em mais uma crítica ao regime, perde o concurso em uma decisão arbitrária do apresentador, onde Raúl não tem o menor poder de participar ou mudar o resultado. A cena final é maravilhosa, digna de Hitchcock.


Alfredo, um ator e tanto.

Alfredo Castro constrói um personagem espetacular, de olhar distante, cada vez mais alucinado, sem nunca se tornar over. Fala pouco, mas suas expressões levam o espectador a tirar conclusões e construir o personagem junto, com cumplicidade. Criou uma linguagem corporal, a barba mal feita, e principalmente, trabalha seu olhar como se fosse uma técnica de ponto de interesse, ou seja pra onde está seu foco de visão, nos direciona para a construção dramática do filme. Seu trabalho de respiração merece atenção, sua decupagem de texto idem. Nuca responde de pronto, mas na respiração correta, com sua codificação de olhar, ação física e principalmente, com entendimento especial do texto sempre curto. (atores vamos começar a ler!)


Fotografia (Sergio Armstrong).

Escreve sua história junto ao filme, trabalha com pouca saturação de cor (ao contrário de Embalos...) pouca luminância, sempre mantendo Raúl na penumbra. Fotografado em super 16, optaram por pouca luz, câmera na mão, e principalmente o uso do desfoque como instrumento de ação dramática. Planos de preferência fechados, em closes de rosto, dando ao espectador o prazer de acompanhar o melhor do filme, a atuação de Alfredo. Contrapõe-se assim a Spielberg, quando este afirma que uma palavra vale milhões em efeitos especiais e afirma: uma expressão vale milhares de palavras e bilhões em efeitos fx.

Edição (Andrea Chignoli )

Perfeita, descontinuada, dentro de uma mesma cena, corta abruptamente deformando o tempo e mudando a localização espacial dos atores. Brinca com o público, na cena do concurso em certo momento apresenta o take de Raúl parado, olhar vago, como se aquela dança não estivesse acontecendo, e nos deixa nessa dúvida até o fim da cena.



Sonorização (Miguel Hormazábal )

Bela sonorização descritiva, mas a sonorização crítica é que vale referência. Chamo a atenção para a cena em que a polícia mata um militante, e o som do tiro se harmoniza com o do trem (a cena é oculta), e a cena em que Raúl tenta fazer sexo com Paulli (Paola Lattus), acabam se masturbando, a sonoplastia é vigorosa. Outra cena, quando Raúl declama as falas em inglês do filme, e ao fundo há o som de pessoas comendo.

Filme.

Baixo orçamento, mas ótimo, obscuro, ousado, surpreendente. Representa bem a sociedade chilena, com os seus jovens militantes em conflito contra a classe média baixa apoiando o regime. Usa as cenas de sexo sem apelativos, e muito bem, dentro do contexto dramático. Consegue mostrar um boquete e um personagem cagando sem ser esdrúxulo. Há uma cena em que Raúl toma banho e um menino deixa cair o leite, simbólico, já que o leite para os trabalhadores, era uma bandeira de Allende.


A direção.

Impecável, nas cenas de homicídio e violência, mantém a mesma seriedade e envolvimento dramático das cenas de sexo e de escatologia. Bela direção de atores, belas marcações de cena e de câmera, sem se deixar levar pela virtuose, mas a serviço da dramaticidade.


Quando perguntam pra Raúl sua profissão, ele responde sempre: Isso. Mas isso o que? Talvez seja pergunta que se faz ao próprio chileno da época. Tem que ver pra responder.




@cajuínas

Katyn, tema fundamental, filme medíocre.

O filme tem seus valores (dir. Andrzej Wajda) , a fotografia em tons quente (destaco a cena do trem pegando os prisioneiros poloneses e da igreja/prisão com a neve caindo). Edição acertada, sutilezas no roteiro, como o rosário (que se perde pelo excesso de explicações depois) e o jovem resistente que mente pra tia. Não dá muito pra avaliar as atuações, pois são em polaco, russo e alemão, mas algumas me chamaram a atenção: Andrzej Chyra (tenente Jerzy), Artur Zmijewski (Andrzej), Maja Komorowska (Mãe de Andrzej) e Jan Englert (general). A personagem Anna (MajaOstaszewska ), passa o filme todo com o mesmo aspecto belo e jovial, ao final não vemos em sua personagem as marcas do drama que viveu, nem dos anos que passaram, ao contrário de sua sogra, e de Jerzy, a meu ver o grande personagem e a grande atuação do filme.



Muito boa a primeira cena, em que os poloneses em ambos lados da ponte, Não sabem pra onde fugir, de uma lado os alemães, de outro os soviéticos.

O roteiro se perde, após o suicídio de Jerzy (o clímax dramático), se estende por mais uns vinte minutos, comprovando a culpa dos soviéticos, nem era necessário, pois o tiro que Jerzy dispara contra a própria cabeça, é a cena mais forte dessa comprovação em termos dramáticos.

O pior pra mim é a ingenuidade do cast de colocar os atores bonitões para fazerem os oficiais e esposas polacas , os gordões para os oficiais russos e os com cara de loucos fanáticos pra viverem os nazistas. Outra péssima, a cena em que a ex-empregada vai visitar a ex-patroa (bela e com caráter firme, como uma esposa de general polonês deve ser) e seu marido, arrogante e grosseiro a recrimina por se mostrar ainda subserviente. Me lembra a cena de "O vento Levou" em que após a guerra, os veterano confederados, esfarrapados e famintos, pedem ajuda (falam em irmandade após a guerra)a um negro, gordo, arrogante e rico... (escrota a mensagem, né gente?)



Fui assistir ao filme, torcendo pra que os soviéticos não tivessem "tanta" culpa assim. Mas não tem jeito não, pode até ser mentira, mas que aconteceu, aconteceu. Há uma concepção monstruosa, de que uma revolução deve eliminar (matar) 20% da população, que seria o núcleo duro de resistência às transformações que a revolução pretende. Parece que o stalinismo era adepto disso e de forma radical.


Todas as soluções anti-democráticas geraram coisas assim ao longo da história da humanidade. Como disse Obama: Não precisamos fazer a falsa opção entre nossos princípios e nossa segurança. Nos cabe agora desenvolver na semente de nossos princípios o respeito ã vida humana, as individualidades, opiniões, e etc.

Os processos revolucionários são inerentes à história humana. Não posso concluir que um dia ocorrerá a revolução comunista, ou operária... Mas que as relações mudam constantemente, sem dúvidas. Não há como, e a história não chegou, nem chegará tão cedo ao seu fim.



@cajuínas

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Lendo O Leitor, trocadilho previsível mas o filme é ótimo.



Excelente filme do diretor Stephen Daldry, atuações maravilhosas, destaques para Kate Winslet (vencedora do oscar 2009) que compôs uma personagem com olhar duro, desconfiado, e principalmente, frio, a não ser nos momentos em que ouvia as leituras dos livros, quando então se iluminava com um brilho emocionado. Ralph Fiennes compõe também um personagem maravilhoso, distante, formal, interessante observar sua postura corporal na cenas de maior emoção para o seu personagem (na prisão com Hanna, e em NY com Rose Mather), Fiennes criou uma postura corporal com o lado direito do corpo caído, cheio de culpa, tenso. Devemos abstrair os sotaques britânicos dos atores, mas gente isso é frescura, né?!



Destaques também para Matthias Habich (que faz o pai do herói), atores! Observem como uma atuação magistral e marcante pode ser obtida de um personagem que só aparece nas cenas do jantar em família, e que quase não possui fala, mas quando a tem, a utiliza dentro de toda uma codificação de olhar, respiração, e intenção. Outro destaque é o professor, segundo pai do herói, vivido pelo Bruno Ganz, com seu tom um tanto tenso/contido, depois entendemos que foi prisioneiro de um campo de concentração, e mantém sutilmente um olhar e respiração marcados pela loucura que viveu.



Consegue abordar temas como a iniciação sexual, o amor à literatura, o amadurecimento, a dificuldade do relacionamento em família, o desgaste de uma relação amorosa, a juventude alemã do pós-guerra, a liberação sexual nos anos 60, a relação pai/filhos, o divórcio, a Alemanha pós-guerra, a vida do proletário, o holocausto, a participação das grandes empresas alemãs na mostruosidade nazista, os julgamentos, e principalmente a culpa de todo um povo confrontando seu passado, onde todos fingem não saber o que houve, mas em verdade todos participaram.


O roteiro (David Hare)

Muito bem elaborado, consegue nos cativar, e não se torna enfadonho em nenhum momento, nem mesmo nos debates na universidade, quando se discute os conceitos filosóficos de lei versus moralidade. Traz perguntas cujas as respostas não são dadas, mas o espectador conclui, e se torna agente ativo da discussão. Há sutilezas, como quando Michael pergunta a Hanna se ela reflete sobre passado, e ela pensa que ele se refere aos dois, vinte anos atrás, mas na verdade ele questiona sobre a sua participação nas SS. Ou seja, mesmo julgada e condenada, ela não se sente culpada, claro que não meu caro Watson! Tudo fica bem claro quando o juiz lhe pergunta sobre a seleção diária das prisioneiras que deveriam ser mortas, resposta elementar, era uma questão de espaço, não cabiam todas e a ré ainda devolve sobre que ele teria feito, o silêncio do magistrado registra uma dura realidade, para muitos agentes dos campos de concentração, a eliminação dos seres humanos era uma questão de eficiência burocrática. Afinal, se alistar nas SS era apenas arranjar um emprego. Outra sutileza do roteiro que nos revela a todo momento as qualidades técnicas e empenho da personagem Hanna em tudo, no trabalho, no sexo, no lar, no cuidar do jovem amante, mas pasmem: é analfabeta. Detalhe que nos leva a torcer para ser sua janela escapatória à prisão, mas não, sua culpa permanece a mesma, e ela não a reconhece. Não reconhece nem a culpa, nem ser analfabeta, sua maior vergonha, o que exporia sua, na verdade, ineficiência. A todo momento vivemos através de Michael a aparente contradição entre o afeto pessoal e a repulsa à Hanna.



Uma aula, durante a maior parte do filme trabalha com tons frios (azul/verde) nos anos 90, onde Michael é um homem frio, em luta contra sua culpa, em contraposição aos tons quentes (vermelho/amarelo) da juventude ingênua dele. Durante o julgamento essa lógica desaparece, e o tom quente só volta na cena final, quando Michael enfrenta seu passado, revelando-o à filha. A primeira cena entre Hanna e Michael é impressionante, contrastada, rostos escuros. Belíssima a cena em que Michael vai buscar carvão. A todo momento, Menges/Deakins criam profundidade com tons avermelhados ao fundo, em janelas, cortinas, luzes. Câmera estabilizada, planos bem cuidados, belo trabalho com as teleobjetivas (a cena em que Hanna se despede de Michael, quando o deixa em casa, com a neve caindo e ele sobe a ladeira vale ser citada.)


Edição (Claire Simpson)

Maravilhosa. Editores! Vamos aprender a montar um filme com cortes secos, sem uso de recursos como wipes, fusões ou fades. Só notei uma fusão no filme, e dentro de uma mesma cena, quando Michael está lendo livros sem parar para mandar as fitas à prisão. A passagem de tempo se dá pelafotografia e uma legenda para nos situar histórico/temporalmente.


Sonorização (Blake Layh)

Espetacular. A cena em que Michael está jantando com a família e se lembra de sua primeira experiência sexual a evidencia, mas durante todo o filme ela está lá nos marcando a sua dramaticidade, seja através da trilha sonora, ou da codificação de sons nas várias etapas temporais e psicológicas que o filme retrata. Vale observar a cena em Michael já maduro dirige, a cena começa com a câmera mostrando o carro de fora, e os sons da rua prevalecem sobre a música que Michael escuta dentro do carro, a qual aumenta quando a câmera pula pra dentro do mesmo.






Pra quem gosta de história

a cena em que um colega de Michael discute com o professor a validade do julgamento e sua vontade de matar os réus, além da sua confissão (ele representa naquele momento o povo alemão) de que todos sabiam o que acontecia nos campos de extermínio, vale referência. Por vezes ficamos com a sensação de que alguns nazistas escaparam ao castigo merecido, e realmente há os que escaparam, mas não havia, também, como pegar todo mundo. Como condenar todo um povo, explodir bombas atômicas na Alemanha ou no Japão? Mas não tenhamos dúvidas de que o povo alemão pagou caro pelo nazismo, seu castigo foi um murro de ferro com a invasão soviético-aliada. Os bombardeios, a fome, as prisões no pós-guerra, as mortes aos milhões, os mutilados, os que tiveram que fugir, trabalhar para reconstruir os países ocupados, limpar os campos de concentração e etc. Quando vemos as cenas do julgamento, estamos sempre querendo ouvir as confissões de culpa, mas o filme nos responde: Não importa o que os nazistas sentiam ou pensavam, mas sim o que eles fizeram. Rase, a sobrevivente nos trás à luz: os campos de concentração não eram lugares para aprendermos coisas, valores morais, lições de vida ou em como nos tornarmos humanos melhores, mas apenas e somente campos de morte.


Apesar de o nazismo ter encontrado sua expressão máxima na Alemanha, não podemos esquecer que os presets da intolerância, do autoritarismo e do ódio a outros seres humanos (se ninguém tiver nada contra, vou considerar os judeus ou qualquer grupo identificável como de seres humanos, ok?) estavam espalhado por quase todos os países do mundo, em especial os europeus e até mesmo a União Soviética e os EUA. A segunda guerra mundial e toda sua matança foi quase que uma conseqüência natural dentro daquele universo de ódio armazenado durante séculos. Lembro a perseguição aos judeus, ciganos, comunistas (mesmo nas repúblicas soviéticas, vide os expurgos stalinistas), socialistas, progressistas, homossexuais (o parágrafo 175, lei anti-homossexual e que só caiu, pasmem, em 1979 na Alemanha Oriental), pacifistas, pagãos (religiões não cristãs) e etc. Dentre as tropas nazistas, inclusive as SS, contavam cidadãos de vários países como holandeses, espanhóis, franceses, russos, romenos, e etc., até mesmo coreanos (o que diabos eles estavam fazendo lá?) Esta semente de ódio persistiu após a guerra e vem até hoje, devemos lembrar entre tantas monstruosidades das manifestações racistas nos estádios de futebol europeus, as guerras na Indochina, na Indonésia, o massacre de Ruanda, onde as etnias Tutsi e Hutus, em verdade nem existem, mas foram invenções dos colonizadores europeus. No Brasil hoje se fala da culpa da crise econômica mundial estar associada a brancos de olhos azuis, e que as vítimas são negros, índios e mestiços. Não vou nem falar do perigo de tal pensamento, apenas gostaria que alguém apontasse entre os grupos citados ou não, algum que seja algo diferente de um ser humano.

@cajuínas

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Frost/Nixon


Grata surpresa esse filme de Ron Howard. Interessante observar duas atuações de composição de personagem, tanto Frank Langella, que em nada lembra aqueles Zorro ou Drácula afetados, e Michael Sheen, o qual nem reconheci como o Lobisomen/Conan dessa bobagem de Anjos da Noite (Rise of the lycans).

Langella-Nixon construiu um personagem espetacular, criou um andar, uma postura corporal, sua maneira de falar, a maquiagem, o cabelo, e principalmente o olhar. Este olhar quase o traiu, e aí me pareceu interferência da direção, na cena em que na primeira pergunta, sobre o vietnã, se arregala e semi-cerra, forçando um pouco mais que o necessário a surpresa, e nesse momento, esquecemos do personagem e lembramos que o ator está ali.

Sheen-Frost começa o filme com um sorriso canastrão sempre presente, mesmo em momentos de desconforto, ou, e vale a pena obsevar a sutil diferença em seu sorriso na última cena com Nixon (lembrando, talvez propositalmente a Ilha da Fantasia- Fantasy Islnad, com Nixon como Sr.Roarke e o assessor como Tatto, curtindo a aposentadoria/exílio), onde o falso sorriso dá lugar ao verdadeiro, de um personagem que realmente gosta de "seu adversário", apesar da ironia do presente, um sapato italiano(é preciso ver para entender).



Roteiro e direção

Interessantíssimos, constroem um herói (Frost) cínico, no início superficial, fraco, ambicioso e perdido, que ao longo do filme vai ganhando consistência e força, até se tornar a voz do povo que enfrenta Nixon, e todo o abuso de poder e ameaça à democracia que ele representa.

Mas é em Nixon que o filme encontra sua força máxima. O filme brinca com nossos sentimentos de simpatia e antipatia com o personagem, apresentando um ser humano em todos os seus aspectos: forte, frágil, esperto, perdido, ambicioso, amoroso com a família, admirável, repulsivo. A todo momento, somos convidados a julgá-lo para ora absolvê-lo, ora condená-lo, até que ao fim, quando sua expressão derrotada, olhar caído em close up através do monitor da televisão, precebemos que não se trata somente de julgar o homem, mas sim, defender a democracia e os princípios que a garantem.



Pra quem gosta de política

Um prazer a mais, em certo momento Nixon cita seu debate contra Kennedy, onde se observou pela primeira vez o efeito da "telegenia", ou seja, como o candidato é percebido pelo público da tv, ou como ela imprime sua mensagem, e ele conta que perdeu ali a eleição. Além de toda a preparação psicológica para a entrevista, os jogos, ou truques para fugir de determinadas perguntas e respondê-las em seus termos.

Edição ágil, sem ser a neurose dos tempos de videoclip, atuações maravilhosas e fotografia corretíssima, alterna a linguagem jornalísitca da época com a cinematográfica, tons frios, nos levando visualmente de volta aos anos 70, com suas cores e luzes, em contraste com os tons quentes dos momentos de derrota ou drama pessoal dos personagens.

Quanto ao que Nixon fez bem lembra o que tem ocorrido no Brasil hoje em dia, com o uso da Polícia Federal, do minsitério público, dos mensalões e etc, para empanelar a oposição e trazer para o guarda-chuva do governo os aliados. Lembrei-me de Figueiredo: Aos amigos tudo, aos inimigos a lei.

Valeu.

@cajuínas